Thursday, August 10, 2006
Thursday, July 06, 2006
Friday, June 30, 2006

Artigo escrito pela jornalista Adelyne Lacerda e traduzido por mim publicado na revista Norte Americana de Arte: NY ARTS MAGAZINE O artigo fala do cenário das artes plásticas no Brasil em especial a minha produção.
Segue abaixo a versão em português
Arte no Brasil – Conceito tropical
Adelyne Lacerda
Traçar um panorama sobre a arte brasileira hoje, impõem uma grande responsabilidade para quem o faz. Seria uma prepotência dizer quais os artistas que mais se destacam num cenário tão promissor, em uma das nações mais proficientes (competentes) em artes visuais.
Porém já é possível perceber que uma “mudança de conceitos” tem aberto as portas de museus, galeria, e principalmente lares, para o que se produz hoje no país.
O espectador e o crítico procuram enxergar através do olhar do artista e não mais somente o que está na tela (suporte).
Há pouco tempo o mercado cultural demonstrava uma grande estima pela “arte conceitual” e atualmente vemos que isso está ultrapassado. O artista brasileiro, em sua maioria, continua resgatando elementos vindos da vivência individual e coletiva porém de modo mais subjetivo, experimentando todas as possibilidades de linguagens estéticas. É moderno e criativo, sem se distanciar de sua memória afetiva e cultural. Constrói uma realidade buscando no passado as referências. Por isso, quase sempre, em uma obra de arte original e contemporânea, observa-se a presença de elementos regionais mas de uma forma bem mais implícita.
Arte no Brasil também é um exercício de resistência. Num país onde ainda se convive com desigualdades sociais, o consumo de cultura ainda é muito complicado. Mas isso está mudando aos poucos com o surgimento de uma instigante produção contemporânea e com a postura de uma nova geração de artistas que parece menos preocupada com a mídia, críticos de arte e opiniões técnicas. É claro que todos querem sobreviver do que produzem, mas o que se observa é um desejo maior pelo reconhecimento popular. Atingir, sensibilizar cada vez mais pessoas que entendam sua poética, sentimentos, linguagem... e que o consumo possa se tornar então, apenas uma conseqüência desse entendimento.
Com esse perfil encontramos uma nova safra de artistas do Nordeste do país, a exemplo de Romero Brito, Rono Figueiredo e Menelau Sete, sendo os dois últimos nascidos na Bahia - estado conhecido no mundo inteiro por suas riquezas naturais e culturais, pelo colorido tropical de suas praias e do carnaval de rua com sua autentica musicalidade. Pois nas artes plásticas os baianos seguem a tendência dessas vibrações, cada um com suas referências particulares, porém com linguagem própria. Nesse cenário podemos destacar o jovem artista plástico, Rono Figueiredo que assim como Menelau e Romero - já conhecidos em Nova York- começa a conquistar os americanos através do magnetismo de sua arte. Rono surge com todos os elementos que se encaixam no atual panorama e se destaca pela originalidade do traço limpo, linear, firme e cheio de personalidade. Tem o que se pode chamar de “identidade” inconfundível. É como ver um quadro de Pablo Picasso sem assinatura e dizer: é um Picasso!
A arte de Rono é divertida, alegre e ao mesmo tempo introspectiva. O mistério está sempre presente no olhar de suas mulheres estilizadas. Seja na série “África” ou na “As faces de Maria” – título de sua primeira exposição individual em cartaz na galeria do Theatro XIII, o espaço cultural mais “cult” da capital baiana , a cidade de Salvador.
Em “As faces de Maria” Rono abusa das cores vibrantes que perecem querer explodir na tela ao serem contidas pelo forte contorno preto – característica principal de sua obra. Seus desenhos são simples mas bastante expressivos e nos remetem a personagens de histórias em quadrinhos.
Nessa série o artista homenageia mulheres do cotidiano da cidade e personagens da sua cultura. Em Abaeté – tela exposta na galeria N° 22, em Londres - Rono recria uma típica lavadeira da lagoa do Abaeté, um dos pontos turísticos mais visitados no mundo.
“Procuro retratar diferentes raças e etnias em situações do cotidiano valorizando formas e curvas. O nome “Maria” por ser muito comum no Brasil foi uma forma de criar uma identificação entre as mulheres e as personagens representadas na minha arte”, disse Rono Figueiredo sobre o motivo dessa homenagem.
Já na série “África”, o artista investiga suas raízes mas rompe as amarras através de uma linguagem singular. Não está preocupado com o “discurso” sobre arte conceitual e sim com a comunicação com o público através da expressão de sua poética. E nisso ele é fantástico. Utiliza os tons terrosos com muita propriedade e a técnica mista ao criar com cera, acrílica e papel seda, texturas inusitadas.
”Esta série tem bastante influencia da cultura africana, com seus simbolismos, crenças e costumes. Seria impossível ficar imune a uma cultura tão rica e tão presente em minha cidade. O resultado é fruto de pesquisa e vivência nesse lugar tão rico em manifestações culturais”, complementa o artista.
Rono tem estilo próprio mas é claro que sua obra também sofre influências de outros artistas como o cromatismo de Frida Khalo e o desenho de Modigliani. Mas são pequenas referências em sua memória perceptiva. A personalidade desse artista já é tão forte que não deixa dúvidas ao bom observador que tivesse que arriscar identificar uma pintura dele sem assinatura. “sim, esse é um Rono Figueiredo”, diria sem pestanejar.
Veja outras obras de Rono:
www.ronofigueiredo.blogspot.com
Adelyne Lacerda
Traçar um panorama sobre a arte brasileira hoje, impõem uma grande responsabilidade para quem o faz. Seria uma prepotência dizer quais os artistas que mais se destacam num cenário tão promissor, em uma das nações mais proficientes (competentes) em artes visuais.
Porém já é possível perceber que uma “mudança de conceitos” tem aberto as portas de museus, galeria, e principalmente lares, para o que se produz hoje no país.
O espectador e o crítico procuram enxergar através do olhar do artista e não mais somente o que está na tela (suporte).
Há pouco tempo o mercado cultural demonstrava uma grande estima pela “arte conceitual” e atualmente vemos que isso está ultrapassado. O artista brasileiro, em sua maioria, continua resgatando elementos vindos da vivência individual e coletiva porém de modo mais subjetivo, experimentando todas as possibilidades de linguagens estéticas. É moderno e criativo, sem se distanciar de sua memória afetiva e cultural. Constrói uma realidade buscando no passado as referências. Por isso, quase sempre, em uma obra de arte original e contemporânea, observa-se a presença de elementos regionais mas de uma forma bem mais implícita.
Arte no Brasil também é um exercício de resistência. Num país onde ainda se convive com desigualdades sociais, o consumo de cultura ainda é muito complicado. Mas isso está mudando aos poucos com o surgimento de uma instigante produção contemporânea e com a postura de uma nova geração de artistas que parece menos preocupada com a mídia, críticos de arte e opiniões técnicas. É claro que todos querem sobreviver do que produzem, mas o que se observa é um desejo maior pelo reconhecimento popular. Atingir, sensibilizar cada vez mais pessoas que entendam sua poética, sentimentos, linguagem... e que o consumo possa se tornar então, apenas uma conseqüência desse entendimento.
Com esse perfil encontramos uma nova safra de artistas do Nordeste do país, a exemplo de Romero Brito, Rono Figueiredo e Menelau Sete, sendo os dois últimos nascidos na Bahia - estado conhecido no mundo inteiro por suas riquezas naturais e culturais, pelo colorido tropical de suas praias e do carnaval de rua com sua autentica musicalidade. Pois nas artes plásticas os baianos seguem a tendência dessas vibrações, cada um com suas referências particulares, porém com linguagem própria. Nesse cenário podemos destacar o jovem artista plástico, Rono Figueiredo que assim como Menelau e Romero - já conhecidos em Nova York- começa a conquistar os americanos através do magnetismo de sua arte. Rono surge com todos os elementos que se encaixam no atual panorama e se destaca pela originalidade do traço limpo, linear, firme e cheio de personalidade. Tem o que se pode chamar de “identidade” inconfundível. É como ver um quadro de Pablo Picasso sem assinatura e dizer: é um Picasso!
A arte de Rono é divertida, alegre e ao mesmo tempo introspectiva. O mistério está sempre presente no olhar de suas mulheres estilizadas. Seja na série “África” ou na “As faces de Maria” – título de sua primeira exposição individual em cartaz na galeria do Theatro XIII, o espaço cultural mais “cult” da capital baiana , a cidade de Salvador.
Em “As faces de Maria” Rono abusa das cores vibrantes que perecem querer explodir na tela ao serem contidas pelo forte contorno preto – característica principal de sua obra. Seus desenhos são simples mas bastante expressivos e nos remetem a personagens de histórias em quadrinhos.
Nessa série o artista homenageia mulheres do cotidiano da cidade e personagens da sua cultura. Em Abaeté – tela exposta na galeria N° 22, em Londres - Rono recria uma típica lavadeira da lagoa do Abaeté, um dos pontos turísticos mais visitados no mundo.
“Procuro retratar diferentes raças e etnias em situações do cotidiano valorizando formas e curvas. O nome “Maria” por ser muito comum no Brasil foi uma forma de criar uma identificação entre as mulheres e as personagens representadas na minha arte”, disse Rono Figueiredo sobre o motivo dessa homenagem.
Já na série “África”, o artista investiga suas raízes mas rompe as amarras através de uma linguagem singular. Não está preocupado com o “discurso” sobre arte conceitual e sim com a comunicação com o público através da expressão de sua poética. E nisso ele é fantástico. Utiliza os tons terrosos com muita propriedade e a técnica mista ao criar com cera, acrílica e papel seda, texturas inusitadas.
”Esta série tem bastante influencia da cultura africana, com seus simbolismos, crenças e costumes. Seria impossível ficar imune a uma cultura tão rica e tão presente em minha cidade. O resultado é fruto de pesquisa e vivência nesse lugar tão rico em manifestações culturais”, complementa o artista.
Rono tem estilo próprio mas é claro que sua obra também sofre influências de outros artistas como o cromatismo de Frida Khalo e o desenho de Modigliani. Mas são pequenas referências em sua memória perceptiva. A personalidade desse artista já é tão forte que não deixa dúvidas ao bom observador que tivesse que arriscar identificar uma pintura dele sem assinatura. “sim, esse é um Rono Figueiredo”, diria sem pestanejar.
Veja outras obras de Rono:
www.ronofigueiredo.blogspot.com
Monday, June 26, 2006
Alice Ruiz
ALICE RUIZEra uma vez uma mulher que via um futuro grandioso para cada homem que a tocava.Um dia ela se tocou.
Esta é mais uma combinação da Michèle Sato entre o belo texto de Alice Ruiz e minha Obra "África-Mulher" no seu site: http://www.ufmt.br/gpea/pub.htm
Visitem
Visitem
Vinícius de Moraes
VINÍCIUS DE MORAESQuisera tanto Por um momento Tê-la em meus braços E coma ao vento Descendo nua Pelos espaços Descendo branca Branca e serena Como um espasmo Fria e corrupta De longo sêmen Da Via-Láctea Deusa impoluta O sexo abrupto Cubo de prata Mulher ao cubo Caindo aos súcubos Intemerata Carne tão rija De hormônios vivos Exacerbada Que o simples toque Pode rompê-la Em cada átomo Numa explosão Milhões de vezes Maior que a força Contida no ato Ou que a energia Que expulsa o feto Na hora do parto.
Esta combinação entre o belo texto de Vinícius de Moraes e minha Obra "Luz" foi da querida Michèle Sato no seu site: http://www.ufmt.br/gpea/pub.htm
Visitem
Sunday, June 25, 2006
Tributo a África
Série de telas 20x20 e 24x18 em Técnica mista com uso de materiais naturais como: juta, sementes de pau brasil, buriti (semente da amazônia), bamboo, pastilhas de coco, madeira, palha da costa e couro.Existem 5 delas disponíveis para compra. preço sob consulta.
Elas fazem parte de uma série experimental entitulada Tributo a Africa.
Flores Metalizadas - Parte da Série Flores em Zoom de 2003

Atendendo a pedidos irei colocar aqui fotos de trabalhos mais antigos, digamos da minha primeira fase na pintura quando meu tema era FLORES. Realizei algumas exposições em Salvador entre 2003 -2004 com esse tema. Esse desenho foi um estudo para a tela acima :
Flores Metalizadas
60x100 OST
Obra Vendida - Desenho disponível
Saturday, June 24, 2006
Mona Lisa ou La Gioconda - Leonardo da Vinci (1503-06) Louvre, Paris

Decorou o quarto de Napoleão até ser levada para o Louvre em 1804. Provocou engarrafamento de trânsito em Nova Iorque quando 1.6 milhão de pessoas se precipitaram para vê-la numa expo de 7 semanas. Em Tóquio, permitia-se a cada visitante 10 segundos para olhar o quadro. O objeto de toda essa atenção foi o retrato mais famoso do mundo.Historicamente ela não era uma pessoa importante, mais provavelmente a jovem esposa de um mercador florentino chamado Giocondo ("Mona" era abreviatura de Madonna, que quer dizer Senhora).
Para chegar a esse conhecimento exato de anatomia, tão evidente nas mãos da Mona Lisa, Leonardo morou num hospital, onde estudou esqueletos e dissecou mais de 30 cadáveres.
Em 1911, um trabalhador italiano, indignado pelo fato de que o melhor da arte italiana residia na França, roubou o quadro do louvre para devolvê-lo ao solo pátrio. A "Mona Lisa" foi encontrada no quarto miserável do patriota 2 anos depois, em Florença.
Em 1952 havia mais de 60 versões da Mona Lisa. Desde a Mona Lisa de cavanhaque de Marcel Duchamps, em 1919, até a série em silkscreen de Andy Warhol e a imagem de Jasper Johns em 1983, a Mona Lisa é não só o mais adimirado como o mais reproduzido dos quadros.
Não vamos deixar de fora a minha contribuição para a lista de reproduções da Mona Lisa, na minha versão, bem mais colorida que a original, ela está em visita à Bahia. Esta é uma pintura em óleo s/ tela com um aplique de renda na horizontal embaixo dos braços da Mona Lisa, como se ela estivesse apoiada numa sacada ou muro.
Esta obra, bem como a obra "Luz" foram compradas por um Inglês através do site: www.bahian-art.com
O Grande Mestre Leonardo da Vinci
"O homem da renascença", termo que veio a significar um indivíduo de talentos múltiplos, que irradiava saber. Leonardo foi universalmente admirado por sua bela aparência, seu intelecto e seu charme. Homem alto de longos cabelos louros "de quem cada movimento era pura graciosidade e cujas habilidades eram tão excepcionais que ele resolvia prontamente qualquer dificuldade". Como se não bastasse, Leonardo cantara "divinamente" e "sua encantadora conversação conquistava a todos os corações". Ávido alpinista, Leonardo adorava escalar altas montanhas e era também fascinado pelo vôo. Quando via pássaros em gaiolas pagava ao dono para soltá-los.Leonardo transformou o status do artista em, segundo suas palavras "senhor e Deus".
Análise de Zilda Mello - Leitura de Produções Artísticas/Letras-UFBA
A obra de Rono tem por tema “As Faces de Maria”, e representa uma reverência aos diversos tipos de mulheres: mulheres comuns, guerreiras, famosas. Todas emblemáticas. Todas tendo algo em comum: um toque de doçura e simplicidade, o que justifica o nome Maria (alusão ao que esta palavra representa de religiosidade). Muitas destas mulheres têm características brasileiras: Paraguaçu, a Mulata d` água, Maria Bonita, entre muitas. Outras fazem intertexto, entre a pintura de Rono e a arte pictórica mundial. É o caso do retrato de Frida Kahlo, uma artista famosa mexicana.
Como pano de fundo para o seu trabalho, Rono foi buscar um solo multicolorido, no qual estas mulheres se assentam. Foi atrás de recursos formais no mundo africano, na escultura e na pintura tradicional daquele povo. A arte tradicional na África, segundo Ola Balogun, tinha como propósito primordial a representação, ou então possuía um valor funcional. As máscaras representavam um disfarce místico, através do qual se podia absorver a magia dos espíritos, e através desta aura influir positivamente nas realizações da comunidade. Mas quando se fala em representação, não se diz uma cópia simplesmente: diz-se, que em várias regiões da África, a natureza das coisas era pincelada em tecido, ou inscrita em pedras e barro, conforme o ponto de vista do artista. Assim, se a sua liberdade o guiasse para novos modos de reverenciar o seu mundo, ele o faria diferente, isto é, poderia modificar um símbolo representativo de uma entidade espiritual, ou de um objeto, contanto que a coisa representada ficasse evidenciada através da sugestão.
De modo quase análogo ( a arte hoje é mais abstrata) vejo as Faces de Maria. Começo a observar um quadro que primeiro me chamou a atenção: o de Maria Bonita, que aparenta uma simples “representação”, até naturalista: a vestimenta, a cartucheira, e o amarelo do sol causticante no lugar do tom agreste da paisagem. Visão inconfundível de uma mulher guerreira. Mas Rono dá um salto, de naturalismo passa para o expressionismo. Será? Que entendo eu de arte? Percebo apenas que o artista não se deixou interpretar totalmente. Vejo que aos cactos, faltam-lhes os espinhos. Também estes cactos são figuras estilizadas, assim como são estilizados, (distorção da realidade) os desenhos das mulheres, com os seus traços alongados, com seus olhos excessivamente grandes, lembrando figuras geométricas.
A harmonia figura -fundo, porém, permite-me fazer inferências, e assim, atrevo-me a dizer que os espinhos dos cactos ultrapassam a superfície visível do quadro, e se cravam no seu interior. Pode não ser nada disso, pois como diz Susan Sontag “ a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte”. A pintura deve em primeiro lugar produzir impressões tácteis, sensações. E ainda, vem-me à mente o seu sábio conselho sobre a recuperação de nossos sentidos: “ devemos aprender a ver mais, ouvir mais e sentir mais”. É relativo, penso. O artista ao seu modo, e da forma como se articula com o seu mundo, realça a percepção que tem dos objetos, das figuras humanas ou dos acontecimentos. Mas isso não quer dizer que as “coisas” por si só não se mostrem e não se declarem concretamente. Ademais, sobre o mistério da criação, quem há de saber?
Detendo-me no que vejo, percebo que Rono se apóia realmente no simbolismo africano para enriquecer o seu modo de inventar. Na internet há um quadro denominado Etnia (nem sei se pertence às Faces de Maria), no qual se distinguem os membros inferiores de uma mulher negra: pernas alongadas e desenvoltas, passos largos, como se bailasse. Os membros superiores, são formas indistintas, talvez uma cabaça esteja ocupando o espaço da cintura para cima. Puro contraste: movimento e recuo. A mulher negra, e livre, e em marcha para frente. E também essa mesma mulher, presa às suas origens: ligada a um mundo simples e natural, representada por um objeto útil (a cabaça) provindo da mãe natureza. Tudo não passa de sugestão, bem sei. E ainda neste quadro, sinto a impressão de que tudo ocupa um lugar adequado, impressão esta, derivada do contraste das cores: um fundo preto versus desenhos brancos, e o marrom terroso harmonizando este contraste. Tudo inspira paz.
A linguagem das cores por sinal, permeia toda a temática, “As Faces de Maria”. Para cada quadro, elas imprimem um tom: as cores brilhantes, como o vermelho, o amarelo e o azul, sugerem movimento e intensidade. O colorido vibrante do quadro “ a mulata d´água,” parece imprimir vigor aos passos daquela “Maria”, fazendo com que a rua e as casas caminhem juntos com ela. O amarelo, que forma o fundo e paisagem, no quadro “ Maria Bonita”, é representativo de sol causticante e da natureza agreste. Em “A Poética” a exuberância de cores, azul, verde, amarelo e lilás, assim, todas juntas, se transformam em quentura e traduzem sedução. Muito coerente com o nome do quadro, “A poética”, é uma obra repleta de poesia e sensualidade. Vê-se neste quadro uma mulher de formas voluptuosas contendo uma rosa vermelha na mão. Quem quer se mostrar e seduzir, a mulher ou a poesia?
Em resumo, situei a obra de Rono sob dois focos: entre o dizer e o sugerir. Acho que nestes quadros, forma e conteúdo se mesclam, e expressam o que há de comum nas Marias – a doçura e simplicidade feminina. Forma e conteúdo também evocam, e assim, fazem as Marias se transcenderem para universos múltiplos. A título de exemplo: em Frida, haverá quem pense na sua difícil trajetória, de vida e de arte; em Maria Bonita, o universo social das lutas de classes será revisitado; na Mulata d` água, haverá quem deseje acompanhar os passos da mulher afro-descendente: sua caminhada e tropeço, partindo da escravidão aos tempos de hoje.
Rono, um artista jovem, soube ser coerente com Nestor Canclini ( em Culturas Híbridas – das Utopias ao Mercado) no que diz respeito à busca de recursos renovadores em regiões que sempre estiveram à margem da cultura Ocidental. Canclini analisa este fato, dizendo que na modernidade, a arte salta das utopias e se firma no mundo do mercado, e é por esta razão, que precisa se revigorar, ser mais abrangente, diluir suas fronteiras e quebrar a pretensa autonomia. Foi o que Rono e outros artistas fizeram, inclusive Picasso. Buscaram a mãe África para redimensionar a estética desta arte, tornando-a perceptível também para as pessoas comuns. É neste alargamento da arte que Canclini a insere dentro das perspectivas do mercado, no contexto de divulgação e recepção. Não é por acaso que Rono inseriu no espaço da internet, um trabalho de muita qualidade.
Zilda Mello, aluna do curso de Letras da UFBA em PAPER para a matéria Leitura de Produções Artísticas ministrada pela Professora Suzane Costa.
Fui homenageado pela Professora Suzane Costa com a escolha da minha obra para tema de Pesquisa do curso Leitura de Produções Artísticas.
Li todos os PAPERS da turma e o escolhido foi esse de Zilda Mello, que foi presenteada com uma obra minha.
Além da bela análise, Zilda Mello ainda escreveu uma poesia :
Poesia são as cores-palavras
na Poética de Rono Figueiredo
a sensibilidade feminina moldada em arte plástica
Poesia... paisagem e quadro
Só música e mais nada
Poesia é toque de mágica
O lirismo cadente de Cecília Meireles
A asa ritmada com o sonho no navio
E o navio no meio do mar
Poesia é linguagem meta de poeta construtor
Em João Cabral - a pedra rara que sustenta o verso
E é palavra –sugestão. Arte de mil demônios pendentes no ar
È também arma sedução
Amor infinito enquanto dure, delicadeza de Vínicius
Poesia é água cristalina rio de água mansa...
lavando levando a melancolia de Bandeira
E até em mim que nem poeta sou
Às vezes a poesia renasce:
O indizível beija a palavra
E eu me assusto com o instante mudo
Zilda Bastos Mello
Como pano de fundo para o seu trabalho, Rono foi buscar um solo multicolorido, no qual estas mulheres se assentam. Foi atrás de recursos formais no mundo africano, na escultura e na pintura tradicional daquele povo. A arte tradicional na África, segundo Ola Balogun, tinha como propósito primordial a representação, ou então possuía um valor funcional. As máscaras representavam um disfarce místico, através do qual se podia absorver a magia dos espíritos, e através desta aura influir positivamente nas realizações da comunidade. Mas quando se fala em representação, não se diz uma cópia simplesmente: diz-se, que em várias regiões da África, a natureza das coisas era pincelada em tecido, ou inscrita em pedras e barro, conforme o ponto de vista do artista. Assim, se a sua liberdade o guiasse para novos modos de reverenciar o seu mundo, ele o faria diferente, isto é, poderia modificar um símbolo representativo de uma entidade espiritual, ou de um objeto, contanto que a coisa representada ficasse evidenciada através da sugestão.
De modo quase análogo ( a arte hoje é mais abstrata) vejo as Faces de Maria. Começo a observar um quadro que primeiro me chamou a atenção: o de Maria Bonita, que aparenta uma simples “representação”, até naturalista: a vestimenta, a cartucheira, e o amarelo do sol causticante no lugar do tom agreste da paisagem. Visão inconfundível de uma mulher guerreira. Mas Rono dá um salto, de naturalismo passa para o expressionismo. Será? Que entendo eu de arte? Percebo apenas que o artista não se deixou interpretar totalmente. Vejo que aos cactos, faltam-lhes os espinhos. Também estes cactos são figuras estilizadas, assim como são estilizados, (distorção da realidade) os desenhos das mulheres, com os seus traços alongados, com seus olhos excessivamente grandes, lembrando figuras geométricas.
A harmonia figura -fundo, porém, permite-me fazer inferências, e assim, atrevo-me a dizer que os espinhos dos cactos ultrapassam a superfície visível do quadro, e se cravam no seu interior. Pode não ser nada disso, pois como diz Susan Sontag “ a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte”. A pintura deve em primeiro lugar produzir impressões tácteis, sensações. E ainda, vem-me à mente o seu sábio conselho sobre a recuperação de nossos sentidos: “ devemos aprender a ver mais, ouvir mais e sentir mais”. É relativo, penso. O artista ao seu modo, e da forma como se articula com o seu mundo, realça a percepção que tem dos objetos, das figuras humanas ou dos acontecimentos. Mas isso não quer dizer que as “coisas” por si só não se mostrem e não se declarem concretamente. Ademais, sobre o mistério da criação, quem há de saber?
Detendo-me no que vejo, percebo que Rono se apóia realmente no simbolismo africano para enriquecer o seu modo de inventar. Na internet há um quadro denominado Etnia (nem sei se pertence às Faces de Maria), no qual se distinguem os membros inferiores de uma mulher negra: pernas alongadas e desenvoltas, passos largos, como se bailasse. Os membros superiores, são formas indistintas, talvez uma cabaça esteja ocupando o espaço da cintura para cima. Puro contraste: movimento e recuo. A mulher negra, e livre, e em marcha para frente. E também essa mesma mulher, presa às suas origens: ligada a um mundo simples e natural, representada por um objeto útil (a cabaça) provindo da mãe natureza. Tudo não passa de sugestão, bem sei. E ainda neste quadro, sinto a impressão de que tudo ocupa um lugar adequado, impressão esta, derivada do contraste das cores: um fundo preto versus desenhos brancos, e o marrom terroso harmonizando este contraste. Tudo inspira paz.
A linguagem das cores por sinal, permeia toda a temática, “As Faces de Maria”. Para cada quadro, elas imprimem um tom: as cores brilhantes, como o vermelho, o amarelo e o azul, sugerem movimento e intensidade. O colorido vibrante do quadro “ a mulata d´água,” parece imprimir vigor aos passos daquela “Maria”, fazendo com que a rua e as casas caminhem juntos com ela. O amarelo, que forma o fundo e paisagem, no quadro “ Maria Bonita”, é representativo de sol causticante e da natureza agreste. Em “A Poética” a exuberância de cores, azul, verde, amarelo e lilás, assim, todas juntas, se transformam em quentura e traduzem sedução. Muito coerente com o nome do quadro, “A poética”, é uma obra repleta de poesia e sensualidade. Vê-se neste quadro uma mulher de formas voluptuosas contendo uma rosa vermelha na mão. Quem quer se mostrar e seduzir, a mulher ou a poesia?
Em resumo, situei a obra de Rono sob dois focos: entre o dizer e o sugerir. Acho que nestes quadros, forma e conteúdo se mesclam, e expressam o que há de comum nas Marias – a doçura e simplicidade feminina. Forma e conteúdo também evocam, e assim, fazem as Marias se transcenderem para universos múltiplos. A título de exemplo: em Frida, haverá quem pense na sua difícil trajetória, de vida e de arte; em Maria Bonita, o universo social das lutas de classes será revisitado; na Mulata d` água, haverá quem deseje acompanhar os passos da mulher afro-descendente: sua caminhada e tropeço, partindo da escravidão aos tempos de hoje.
Rono, um artista jovem, soube ser coerente com Nestor Canclini ( em Culturas Híbridas – das Utopias ao Mercado) no que diz respeito à busca de recursos renovadores em regiões que sempre estiveram à margem da cultura Ocidental. Canclini analisa este fato, dizendo que na modernidade, a arte salta das utopias e se firma no mundo do mercado, e é por esta razão, que precisa se revigorar, ser mais abrangente, diluir suas fronteiras e quebrar a pretensa autonomia. Foi o que Rono e outros artistas fizeram, inclusive Picasso. Buscaram a mãe África para redimensionar a estética desta arte, tornando-a perceptível também para as pessoas comuns. É neste alargamento da arte que Canclini a insere dentro das perspectivas do mercado, no contexto de divulgação e recepção. Não é por acaso que Rono inseriu no espaço da internet, um trabalho de muita qualidade.
Zilda Mello, aluna do curso de Letras da UFBA em PAPER para a matéria Leitura de Produções Artísticas ministrada pela Professora Suzane Costa.
Fui homenageado pela Professora Suzane Costa com a escolha da minha obra para tema de Pesquisa do curso Leitura de Produções Artísticas.
Li todos os PAPERS da turma e o escolhido foi esse de Zilda Mello, que foi presenteada com uma obra minha.
Além da bela análise, Zilda Mello ainda escreveu uma poesia :
Poesia são as cores-palavras
na Poética de Rono Figueiredo
a sensibilidade feminina moldada em arte plástica
Poesia... paisagem e quadro
Só música e mais nada
Poesia é toque de mágica
O lirismo cadente de Cecília Meireles
A asa ritmada com o sonho no navio
E o navio no meio do mar
Poesia é linguagem meta de poeta construtor
Em João Cabral - a pedra rara que sustenta o verso
E é palavra –sugestão. Arte de mil demônios pendentes no ar
È também arma sedução
Amor infinito enquanto dure, delicadeza de Vínicius
Poesia é água cristalina rio de água mansa...
lavando levando a melancolia de Bandeira
E até em mim que nem poeta sou
Às vezes a poesia renasce:
O indizível beija a palavra
E eu me assusto com o instante mudo
Zilda Bastos Mello










































